A Bélgica tem medo do Brasil. Cada vez mais vocês têm inundado os mercados europeus com produtos com os quais não conseguimos competir, produtos tão diversos quanto frango, aeronaves e etanol. Na atual Bélgica — e Europa — reviradas pela crise, parece pouco crível que a crise financeira no Brasil foi, alegadamente, não mais que uma “marola” e que a expectativa para 2010 é de crescer 6,5%. No Brasil, a classe média está aumentando, e a pobreza, apesar de onipresente, declina, enquanto a situação financeira do Estado está aparentemente sem problemas. Nada disso se aplica à Bélgica.
Então, quando uma rede de TV pública belga flamenga, VRT, começou a filmar uma série de não menos que dez documentários sobre o Brasil, uma das primeiras perguntas que nós fizemos foi: se o Brasil é tão bem-sucedido, será que é porque tem políticos melhores que na Bélgica?
Desde então, tenho aprendido muito. Fui informado da existência de corrupção que persiste e da aparentemente prática imbatível da barganha de votos. Também ouvi que existe quantidade caótica de partidos políticos: nada menos que 28, com coligações que não se baseiam em ideologia. Também escutei que as duas maiores redes de TV têm, cada uma, a sua preferência política, e que isso é bem visível no noticiário do dia a dia. Na Bélgica flamenga, as maiores empresas de mídia são obrigadas por lei a serem politicamente neutras em todos os seus programas.
Ainda assim, a resposta para a pergunta original é sim! Sim, o Brasil tem melhores políticos que a Bélgica. Mas, infelizmente, não são muitos. Talvez Fernando Henrique Cardoso seja o responsável por ter estabilizado a moeda e conter a inflação. Talvez Luiz Inácio Lula da Silva seja o responsável por ter dado o início a um sistema de seguridade social sem criar uma sociedade da assistência pelo dinheiro fácil. Durante a semana que passo no Brasil, ouço assustadoramente poucas críticas a Lula, mesmo da boca da oposição.
Então, vamos tentar quebrar esse tabu brasileiro. O presidente Lula também anunciou um salto de qualidade na educação. Tal declaração, na imprensa belga, seria com certeza vista como uma nítida declaração de incompetência. Quase todas as pessoas com quem converso confirmam que as escolas públicas têm baixa qualidade de ensino. Algo tão essencial como a qualidade da educação deveria ser tratado logo no início de um mandato, não ao final.
Como estrangeiro, é intrigante ouvir que as crianças brasileiras vão à escola fundamental apenas durante meio período do dia. Na Estrutural, visitei a Associação Viver, um projeto parcialmente sustentado pelo governo, que ajuda as crianças pobres, oferecendo o reforço escolar e oficinas pedagógicas, o que contribui para as crianças terem um melhor rendimento escolar. Esse projeto é maravilhoso, mas ele deveria ser supérfluo. Escola fundamental integral de qualidade deveria ser organizada por estado. Como belga, é inacreditável que milhares de crianças brasileiras saiam da escola com 14 anos mal sabendo ler e fazer alguns cálculos e nada mais. Na Bélgica, a educação básica de qualidade sempre foi considerada um negócio central para quase todos os partidos políticos do país. E isso faz toda diferença.
Uma das lideranças da Associação Viver é Caroline Soares, de 26 anos. Ela é uma acadêmica do Departamento de Sociologia da UnB que poderia simplesmente não se importar com os pobres na favela. Ao invés disso, ela resolveu se mudar para dentro da Estrutural e trabalhar como voluntária na Associação Viver para ajudar a criar um processo de inclusão social à população local. Apesar de Caroline não ser política, talvez ela também seja responsável por um “trabalho político melhor que os de gabinete.
Passei a semana passada acompanhando a vida política e dos políticos do Brasil, e ainda não sei dizer se o Brasil está melhor graças aos seus políticos ou apesar de seus políticos. Mas não sou pessimista. Encontrei ambos, problemas gigantescos e uma vontade encantadora de continuar a resolver problemas na era pós-Lula. O que o Brasil precisa não é de lições da Bélgica ou de lugar algum, mas um debate aberto e comprometido sobre como o Brasil pode se transformar numa sociedade melhor. Para além da economia.