Covid já tirou R$ 1,3 bi da renda do país, aponta FGV

Estudo leva em conta média de rendimento dos mortos em idade ativa até 6 de outubro

As mortes por covid-19 são tragédia incalculável para família e amigos das vítimas. Cada vida perdida no combate à doença tinha história singular, experiência única - e a ausência delas também é grande perda de capital humano para economia brasileira, informam especialistas da Fundação Getulio Vargas (FGV). Levantamento da fundação divulgado ao Valor alerta sobre impacto, na atividade, da retirada do potencial econômico dos falecidos, causado pela pandemia. O estudo usou como base dados do Portal de Transparência do Registro Civil, que indica 63,1 mil vidas perdidas para a enfermidade entre 20 e 69 anos, de 16 de março a 6 de outubro.

Essas mortes representaram retirada de R$ 108,6 milhões por mês da massa de rendimento total do país. No ano até 6 de outubro, isso corresponde a R$ 1,3 bilhão a menos de renda, pontuam os economistas Claudio Considera e Marcel Balassiano, autores do estudo.

Essas pessoas, acrescentaram os especialistas, poderiam gerar renda total de R$ 36,1 bilhões até o falecimento dentro de expectativa de vida média do país. “Essas pessoas são insubstituíveis”, ressaltou Balassiano. “Estamos tentando medir aspecto que não é o mais relevante em um indivíduo - mas que é importante também”, completou.

Ao falar sobre os dados, Considera detalhou que o estudo levou em conta conceito de capital humano, detalhado em guia das Nações Unidas de 2016. O especialista admitiu, no entanto, que a ideia é subjetiva. Um indivíduo não pode ser mensurado em um único número ou somente por um aspecto, ressaltou o técnico. “A vida não tem preço, mas podemos tentar medir o impacto [das mortes] em termos de contribuição econômica para a sociedade”, disse.

Partindo dessa premissa, os especialistas cruzaram dados de Registro Civil com óbitos relacionados a covid-19, separados por sexo e idade, com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Na Síntese de Indicadores Sociais de 2019 do instituto, consta informações de renda real separadas por sexo, idade e nível de instrução.

Também foi levado em conta anos de sobrevida que cada uma das vítimas, separadas por faixas de idade, ainda poderia ter, com base em relatório de 2018 do IBGE sobre Expectativas de Vida em Idades Exatas. Até aquele ano, a expectativa média de vida do brasileiro era de 76,3 anos.

Usando essa base de dados, outro aspecto apurado no estudo foi ausência de renda de 72,3 mil pessoas acima de 70 anos, mortas por covid-19, originada de pensões e aposentadorias. Essas pessoas tinham rendimento mensal total de R$ 138,3 milhões.

Isso corresponde à retirada de R$ 1,7 bilhão da economia, no ano até 6 de outubro. Para Considera, o cenário atual também levanta questões preocupantes para produtividade futura do país. Ele mencionou o grande volume de pessoas fora do mercado de trabalho, atualmente no país - o IBGE calcula 13,1 milhões de desempregados até o trimestre encerrado em julho desse ano. “Vamos supor que o espaço dessas pessoas falecidas, no mercado de trabalho, tente ser ocupado por desempregados; não há certeza se isso acontecerá. Pois, obviamente, a pessoa que se foi levou com ela experiência de trabalho. Isso foi perdido”, frisou. “O desempregado não tem como ocupar esse espaço de forma completa” disse, comentando que é preciso tempo e custo para treinar pessoas.

Na análise de Considera, a retirada de rendimento na economia, bem como diminuição de produtividade provocada pelas mortes, tende a se agravar. Isso porque a contagem de vítimas da covid-19 continua. “A pandemia não acabou. Infelizmente, muitas pessoas ainda vão morrer”, afirmou o economista.

Até ontem foram contabilizadas 150.709 mortes por covid-19 no país, segundo levantamento do consórcio de veículos de imprensa, a partir de dados de secretarias estaduais de Saúde.

Fonte: Valor Econômico

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